Cururu - Retratos de uma tradição
Autoria de Cido Garoto (Aparecido Garuti), edição 2003

Para adquirir CDs ou o livro Cururu – Retratos de uma tradição, entrar em contato com cidogaroto@yahoo.com.br

A origem do cururu não é única, são várias, com muitas histórias a respeito.

O cururu é tradição de uma região específica do estado de São Paulo, o Médio Tietê, especialmente Sorocaba e Piracicaba.

Há algumas versões a respeito da origem do cururu. Alguns dizem que remonta à época da colonização, do tempo em que os jesuítas se esforçavam para catequizar os povos indígenas dessas terras. As ladainhas e a devoção aos santos católicos, as bandeiras do Divino ou da Folia de Reis foram heranças deixadas ao mameluco tipicamente paulista, o caipira.


Aparecido Garuti e Donizete, cururueiros de Sorocaba, no desafio cantado do cururu, no Revelando São Paulo 2005, Parque da Água Branca.

Zico Moreira, cururueiro natural de Conchas, dá aos bandeirantes o crédito da difusão do cururu. Os bandeirantes utilizavam o canto de improviso para louvar os santos e pedir o sucesso da bandeira.

"Posteriormente, quando um cantador louvasse o santo de forma equivocada, outro cantador, também repentista, o advertia de seu erro, cantando um verso para chamar-lhe a atenção. O repreendido, por sua vez, respondia, também em versos cantados, a sua defesa. Dessa defesa surgiu, depois, o desafio cantado do cururu", nos conta Carlos C. Cavalheiro, citando entrevista com Zico Moreira, na apresentação do livro Cururu - retratos de uma tradição.

Já Cido Garoto, autor do referido livro, lembra-se da noite de festa junina em que conheceu Nhô Zé. Em uma oportunidade de conversa, lhe perguntou como o cururu havia nascido, ao que Nhô Zé lhe respondeu:

" – Ói, moço, eu fui rezadô de terço nessa região e pelo que vi contá, nas minhas rezadas por aí, é que aquele tempo a gente guardava o Divino como se fosse defunto, a noite inteira."


Cido Garuti apresenta seus versos de improviso, enquanto Donizeti espera a vez de responder aos desafios, cantados na carreira de São João

E era durante o pouso do Divino, depois da louvação à imagem, o canto dos hinos e agradecimentos aos festeiros donos da casa, "a irmandade cansada das caminhada, pois transportava a imagem tudo a pé, andava de vinte a trinta quilômetro às veis para chegar de uma casa noutra, ia se deitar pelos terrero ou varanda da casa, com suas cobertas que eles mesmo carregava em suas muchilas. Daí ficava na sala só os rezadores e vizinhos que continuava a cantar hinos em frente do altar para passar o tempo. Os hinos que mais cantava era louvor a Nossa Senhora Aparecida pois era o que mais tinha. Só que iam cantando e repetindo hinos, muitas horas, que chegava um ponto que ficava injuativo repetir tantas veis o mesmo hino, tantas repetição que algum deles começava a mudar a letra dos hinos, tipo paródia, e o resto do pessoal quando gostava aplaudia. Daí começô o interesse pelo improviso, tanto que nem os hinos tradicionais não se cantava mais, daí foi surgindo os melhores repentistas rezadores que eram sempre procurados pelos festeros para participar do pouso do Divino.
(...) - E o cururu foi mudano, foi mudano e tá mudano."

A maioria das rimas tem nomes de santos.

A principal regra do cururu é seguir uma rima ou carreira. O primeiro a cantar apresenta uma rima que deve ser a mesma do próximo cantador.

Geralmente o cururu é cantado por quatro cantadores. O primeiro é parceiro do terceiro. Se o número de cantadores for ímpar, desaparecem as duplas e é cada um por si.

O cantador de cururu é acompanhado pelo som da viola caipira.

A maioria das rimas tem nomes de santos. A carreira de São João, por exemplo, a rima deve ser em "ão". Há a rima do Sagrado, do Nosso Sinhô, rima do Bom Conceio, da Cruz Pesada e muitas outras.

O violeiro que acompanha o cantador de cururu, tem de ter habilidades especiais, já que o improviso é regra.

Nesta apresentação, os cururueiros foram acompanhados por viola, violão e pandeiro.

Cido Garoto, autor do livro Cururu, retratos de uma tradição nos diz: ..."o cantador de cururu às vezes se enrosca, engole um tempo ou meio de compasso, pronuncia uma palavra muito comprida, perde a matemática e atravessa o ritmo". O violeiro, atento, acompanha tudo isso na viola, adiantando ou segurando o compasso. "A platéia nem percebe", conclui Garoto.

Mas nem só de desafio vive o cururu. O cantador muitas vezes é chamado para animar os leilões realizados em festas religiosas, é o chamado leilão cantado. Cido Garoto nos dá um exemplo:

Senhores meus companhero
que chegô neste salão
hoje eu sô o leiloeiro
eu que vô fazê o leilão
Eu quero leiloá primero
Este frango muito bão
É um frango de terrero
que nunca comeu ração
foi assado no tempero
vale só cinco cruzero
e quem dé mais levante a mão.

Cururu – retratos de uma tradição apresenta muitas outras características dessa rica tradição do desafio cantado do Médio Tietê paulista. Passeia com uma linguagem que parece conversa ao pé do fogo pelas "histórias de um cantador", apresenta os "percalços do cururu", relaciona os "cantadores antigos famosos", fala do perigo do desafio do "branco x preto", além de descrever a "ética no cururu", falar sobre os "olheiros", "torneios de cururu", "o cururu no rádio", além de organizar um oportuno "vocabulário do cururu".

Ponto alto deste livro, as "biografias" apresentam mais de 200 cantadores de cururu e violeiros que os acompanham, todos com suas fotografias (os retratos do título) e breve descrição da carreira de cada um.

Tal número de cantadores e violeiros em atividade é prova final para calar a todos que falam da "extinção de nossas tradições" ou daqueles que pregam a sua "preservação". Preservado (e em plena atividade), o cururu já está no coração e na mente ágil de seus cantadores e violeiros e de todos os apreciadores dessa arte tão nobre e única do Médio Tietê paulista.

Sandra Abrano
Para reprodução no todo ou parte deste texto,
obrigatória a consulta à sandra@barroecordas.com.br

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