A Busca
De como uma viagem após outra enriqueceram um pequeno acervo

Já tínhamos alguns instrumentos musicais feitos por mãos conhecidas, buscados em nossas andanças por São Paulo. Ao Vale do Ribeira, já tínhamos ido algumas vezes.

É de lá a rabeca de Aarão Barbosa, que tivemos a oportunidade de conhecer, morando em bairro popular de Iguape, se recuperando de um “derrame” que lhe deixou mãos trêmulas e inseguras para firmar as toscas ferramentas que davam forma à sua rabeca. Pouco tempo depois dessa visita, Aarão Barbosa se foi.

Pica-pau Pica-pau, de Cananéia, fazedor de barcos, cercas e tudo o que fosse do trato com a madeira. Mas o fino de seu trabalho são as violas de fandango. Viola cinturadinha, coisa linda, delicada, cobiçada desde o primeiro momento. O passarinho é o detalhe na madeira que segura a cravelha da corda menor, periquita cantadora, mais falante nessa viola, talvez por conta da companhia da avezinha do detalhe.

Também tínhamos a viola de seu Valter, de fandango. Seu Valter encontramos no trabalho da construção civil, em Icapara, Iguape. Logo entabulamos conversa e um passante desconhecido, todo prosa, olhou logo a viola, pegou na mão, observou. “Que cola o senhor usa? Usa a tal?” Seu Valter, algo ríspido, disse logo Araldite e deu por encerrada a interferência.

Nessa época, a rabeca que o Valmir fazia cantava alto, mas não era esse o instrumento que ele tocava na Folia de Reis da Freguesia do Ó. Na Folia, ele tocava a viola caipira e o Luiz, uma rabeca, rústica de tudo, escavada, branquinha de gameleira. É do seu Djalma, Luiz contou, de Jacupiranga. Comprou lá no Revelando.

Pois então.

Viagem pensada, ao Vale mais uma vez, assim: saída do Butantã, com destino a Eldorado-Iporanga-Serra-Apiaí, na volta passando em Cananéia, Ilha do Cardoso e Iguape.

Na ida, logo ali, passadinha em Jacupiranga. Pergunta daqui, pergunta dali. Seu Djalma? Rabeca? Ninguém nunca ouviu falar. Na Biblioteca, nos disseram, tem uma moça que conhece todo mundo que faz algo típico na região. E tinha. Seu Djalma? Não é de Jacupiranga, não. Ele é de Cajati, aqui pertinho. Pega a estrada assim, faz isso e aquilo. Aí pergunta do seu Djalma. E fomos. Pergunta daqui, pergunta dali. “Acho que tem um home que faz rabeca. Pega a estrada, anda até...

E fomos.

Bom, as indicações nos levaram a uma estrada de terra, no meio de uma plantação de bananeiras que não tinha fim. O carro ficou na estrada, seguimos a pé até um riacho. Atravessado o riacho, a plantação de bananeiras seguia até perder a vista e aí, uma casinha.

Bate-palma. Bate-palma. Seu Djalma! Bate-palma.

Demorou um pouco.

Só a cabeça do seu Djalma, na esquina da casinha. Seu Djalma, eu sou a Sandra e ele é o Valmir. A gente mora em São Paulo e saimos em uma Folia de Reis em que o capitão toca uma rabeca feita pelo senhor.

Abre a porta pra fazer um café. A conversa já ia solta, timidez à parte.


Seu Djalma

Na sala, um banco de madeira. Na janela um barquinho escavado. Na parede, o retrato de um casal, descorado de tão antigo. E só.

Na cozinha uma mesa e duas cadeiras. Lugar pra deixar panelas, tudo limpo, limpíssimo.

Seu Djalma mora ali, sozinho.

Café tomado, fomos à casa de um amigo do seu Djalma, tocador de viola.


Na casa do amigo.

O dia foi-se indo, acabando de dar dó. Muita conversa rolou, muita nota soou da viola, do machete e da caixinha.

Hora de ir, um abraço de despedida no seu Djalma, no amigo...

O machete já usado, encardidinho e gracioso veio junto com a rabeca branquinha de gameleira.

A viagem seguiu seu curso e continua seguindo até hoje, mais de cem instrumentos depois.

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